hello, world

Deitava-se no sofá, nu. Não, não estava nu. Estava de pé, terceiro na fila dum caixa rápido de supermercado, esfaqueado pela súbita idéia de estar nu, desprotegido, estatelado. Alguém estabelece contato: um homem, o primeiro homem, de frente para a máquina, agora de costas, seus dedos distraídos em carícias numa fenda sobre um leitor de código de barras.

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Não olhe agora, tem uma garota pálida de filme de terror atrás de você, sorvendo você, tonta, atordoada pela súbita passagem que a trouxe até aqui tão perto, agora.

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xlr8

― Mainha diz que quem tem deus no coração é bom e quem não tem deusnocoração é mau, que quem temdeusnocoração às vezes é mau e quemnãotemdeusnocoração é sempre mau.
― Do meu coração, tudo que sai é de desenho animado.

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Esquete cômico: Gostosa

De pé no corredor do ônibus lotado, numa curva fechada a gostosa arranca a miniblusa e grita sem equilíbrio, os peitos enormes encharcados de lágrimas:
― Eu sou um ser humano!
Os passageiros, arrebatados por uma súbita iluminação, entrelaçam-se numa orgia espontânea enquanto a gostosa descabelada, espremida no chão entre o motorista e duas crianças, chora de prazer.

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Insuficiente

A aceitação pura,
sem a tensão do extraordinário,
não nos basta.

Pois o amor em estado bruto,
como tudo o que é primitivo,
emana sem direção.

Sem vértices que nos apontem,
não nos faz únicos.

Seu sorriso gasoso
é por demais verdadeiro,
silencioso como o mundo.

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Farsa em três atos

De olhos ainda fechados, pesou as circunstâncias e julgou mais acertado voltar a dormir. Não deu um segundo, pulou da cama a cantarolar: “vamos fazer um café, tomar um banho, essas coisas de gente que gosta de vida”. Disparou até a janela mais próxima, procurou um filete vertical de céu por entre os prédios vizinhos e desculpou-se pelas palavras.

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Tigelas azuis transparentes

Tenho uma tigelinha azul que nasceu aqui em casa. Antes, só tinha uma grande ― esta, adquiri já adulta. Deve ter chegado grávida, pois a outra surgiu sem aviso, minúscula, emborcada num canto de prateleira. O mesmo azul transparente, a mesma aba na borda. Estranhei o tamanho a princípio, pois nela não cabia sequer um terço das pipocas que cabiam na outra. Mas como não sou de dar crédito à memória, convenci-me tratar-se da antiga. Afinal, até a aba na borda era idêntica. Para minha surpresa, meses depois encontrei a mãe toda empoeirada dentro de um armário. Procurei a menor e só tirei a prova quando vi as duas na mesa, dispostas lado a lado. Agora elas vivem juntas, uma dentro da outra. Estranho a pequena não ter crescido mais. Deve ser anã, por isso ficou assim tão miúda.

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Violência urbana

Caminhava uma mulher qualquer à meia-noite ladeira abaixo, num rebolado sutil, preguiçoso; sua atenção distraída pelo ruído crespo do motor de um carro azul-enluarado de origem desconhecida, parado ao seu lado num arremedo de acostamento. Pela janela via duas mulheres ― uma delas, a que estava mais perto, num sobressalto abriu a porta do carona e puxou-a pelo antebraço:
― Você não passa de hoje.
Forçada para o interior deste carro, deparou-se com uma motorista séria a olhar para a frente, o polegar mal iluminado firme no botão de freio. De costas para todas, no banco traseiro, uma terceira apenas mirava a paisagem. Esta, tão logo o carro se pôs em movimento, segurou-a pela mão numa leve apatia e, sem desviar o olhar da janela por um segundo, massageava seus dedos, um de cada vez. Não pensava em mais nada neste mundo.

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Pornô amador

O espelho a chamava, e era sempre o mesmo sinal que a deixava inquieta. Uma mancha insignificante no ombro que, por razões que jamais saberia explicar, ressaltava qualquer aspecto primitivo de sua condição feminina. O animal que via refletido era ela e era outra. Sempre em cortes, pequenos detalhes. Não conseguia ater-se ao corpo como um todo. Tão vulgar, tão material, tão diferente do que podia lembrar de si mesma. No espelho, seu ser parecia exageradamente delineado, muito distinto de seu confuso universo mental ― e por isso apenas, tão atraente. De início, nunca permitia tocar-se. Observava-se abrir as pernas e fazer pequenas contrações. Não suportava o brilho de sua carne. Derretia, seu corpo pingava na cadeira. Desejava que alguém entrasse e presenciasse aquilo, qualquer um. Foi pensando nesta doce humilhação que, afinal, deixou-se tocar. Com as pontas dos dedos molhadas, rodeava os mamilos com delicadeza. Não era sempre que fazia tão devagar, desta vez queria sentir muito. Não se reconhecia ― o tronco tão esticado, os movimentos tão sinuosos que seu corpo parecia possuído. Não lembrava ter dado ordem para enrijecer os pés daquela maneira, os dedos assim apertados contra o chão. A esta altura, escorria pela cadeira e pingava no piso gelado.

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Menoridade

Por derramar um copo plástico de guaraná no macacão azul da menina, atiçou uma pequena multidão ao seu redor. Fosse com toda a psicologia do universo, mesmo que até o último segundo daquela festa de aniversário, ainda assim não conseguiriam arrancar daquele menino de quatro anos uma descrição compreensível da beleza que enxergava nos pequenos lapsos de descontrole.

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A garota do pára-brisa

“Aqui não se morre” ― pensou sem pensar, num dialeto primitivo do corpo, enquanto empurrava a porta de vidro da loja de conveniências. Ao primeiro passo, suas pupilas encolheram-se em protesto à luz branca do sistema de iluminação. Num movimento quase imperceptível, espremeu a carteira do bolso e rumou em direção ao caixa eletrônico, suas mãos concentradas num procedimento automático de localização e resgate de objetos. Com o cartão plástico firme entre os dedos, conquistou com alguns toques a confiança da máquina e recolheu quatro cédulas lisas de dez pela fenda. Dobrou-as com uma das mãos enquanto a outra puxava a porta do refrigerador para além do seu corpo. Escorou-a com o ombro e reconheceu as letras cursivas na lata vermelha, os pelos da nuca eriçados de frio.

Gostava de dirigir à noite, a cidade deserta lhe parecia mais compreensível. Na entrada de um longo túnel, não conteve o grito: um corpo de mulher desabou com estrondo no pára-brisa. Com a visão bloqueada, orientava-se pela janela, os longos cabelos da morta de encontro ao seu rosto. Como o túnel e sua luz amarela nunca chegassem ao fim, em estado de choque lembrou-se do rádio. Apertou cinco botões numa seqüência memorizada e chegou à estação preferida, na esperança de um resgate impossível por um refrão de sucesso qualquer. No braço desconjuntado da moça, estirado por trás da cabeça em posição estratégica, detectou a cadência firme dos segundos num ponteiro finíssimo de relógio e concentrou sua vista naquele pequeno artefato, tão vivo quanto familiar. À contagem de trinta e sete, saiu finalmente do túnel, virou à direita e parou na contramão de uma rua estreita, deserta. Apertou o botão vermelho do cinto de segurança e respirou fundo. No ar, um perfume doce de xampu.

De pé no asfalto, espremeu do bolso um telefone e deu quatro toques no teclado. Escorou o aparelho com o ombro e caminhou em direção à mulher, o sinal de chamada insistente no ouvido. No rádio, um locutor de voz mansa recapitulava as últimas músicas da programação. Chegou bem perto, fitou-lhe os cabelos pretos, o filete de sangue entre o nariz e a boca, e deteve-se nos olhos cerrados. Longe de mortos, mais pareciam voltados para a vastidão de um mundo interior. Ao tocar-lhe a face com as costas da mão, arrepiou-se com a voz de mulher: “central de polícia”. Deixou cair o telefone no instante em que o cadáver se iluminou. Ao olhar para trás, suas pupilas encolheram, ofuscadas pela luz do automóvel em alta velocidade.

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Musiquarium

O peixinho, como que desistindo de tudo, deu uma sacudida de peixe diante das profundezas e meteu-se num estado inesperado de prontidão. De tão permeável, foi atravessado por delicados reflexos azuis naquele mundo de água escura.

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Locomoção

Fim de tarde, lua em quarto crescente. Numa manobra cirúrgica, o motorista estaciona de ré entre duas motos e desliga a ignição:
― Obrigado, meu carrinho, por me trazer tão depressa para casa.
E o carro num transe, agora de porta aberta, a tudo conectado por uma espécie de loucura neutra.

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Vermelho

O sujeito era muito suscetível a qualquer sensação, e esta pequena curiosidade escondia em seu novelo um detalhe ainda mais curioso. A coisa funcionava assim: digamos que este sujeito (vamos chamá-lo Trombonildo) olhasse para um belo sapato vermelho. Seus sentidos partiam da percepção trivial de vermelho e avançavam. Até um ponto em que seu organismo simplesmente nadava num rio vermelho. Rio quente, vermelho-sangue. Agora o detalhe ― sabe aquele ossinho esquisito, perto do cotovelo? Executava sem delicadeza sua função: tomava um choque. Um vermelho-choque. E Trombonildo não tinha paz. Morria de medo de tomar este choque escabroso em situações que envolvessem conceitos que considerava, digamos, um tanto obscuros. Mas a vida lhe reservou, até o dia de sua morte (ataque cardíaco fulminante, no momento em que terminava de ler uma história estranha sobre um tal Trombonildo), finais felizes em sucessão. Pois quando Trombonildo começava a afogar-se na temida obscuridade ― e seus dois ossinhos ensaiavam as primeiras fagulhas de um choque descomunal ― surgia sempre, para salvá-lo, uma nova sensação, um novo vermelho.

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Cinema paradiso

Tinha duas cenas, o filme ― ambas curtas e memoráveis. Na primeira, um par de mãos decididas manipulava um objeto cilíndrico, num sofrido vaivém. A cada movimento de saída, os pequenos lábios cor-de-rosa eram repuxados para fora, como se fossem borrachas de proteção. Na segunda, a suprema intimidade: a moça de olhos pretos sorria com dois furinhos na bochecha e dava língua para a câmera. Só uma pontinha de língua, parecia um anjo.

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Delírio cotidiano

Um clique do interruptor desfaz o silêncio na cozinha: “Rerrerré, chego em casa nem troco de roupa, vou fazer meu miojo. Todo suado, todo fedendo a rua, não quero saber. Rerrerré, de galinha, o clássico. Dois copos e meio sua mãe. Abro logo a torneira, meu negócio é no olho”. Acende a boca maior do fogão com a ponta do cigarro e vai fazer um café. Ao ouvir o chiado das primeiras borbulhas, rasga o pacote no meio com os dentes. Despeja o envelope prata na mesa, e na panela, o tijolo de macarrão: “Rerrerré, três minutos sua mãe”. No escuro do quarto, localiza um disco de Tom Waits e cai de bruços na cama. Seu macarrão tem que ser empapado: fogo alto, três minutos e quarenta e sete, segunda faixa do lado A. Toma um gole de café do seu copo americano ― surrupiado, com orgulho, de um boteco: “Rerrerré, eu sou tipo bucóvisque”.

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Desejo

Liberto da lâmpada e sua existência surreal, declamou um gênio agradecido:
― Tens direito a três desejos!
― Desejo, então, afogar-me na delicadeza do mundo.
O gênio, com seus dedos redondos, cerrou os olhos do amo e beijou-lhe os lábios bem devagar, enquanto lágrimas de séculos gotejavam na areia fina.

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Apeirofobia

medo é medo do infinito. Todo
é medo do infinito. Todo medo
medo do infinito. Todo medo é
do infinito. Todo medo é medo
infinito. Todo medo é medo do
Todo medo é medo do infinito.

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De manhã cedo

Devia ter uns dez anos. Encontrei-o parado de pé na cozinha, como se me esperasse. Segurei seu braço:
― Posso te beijar, se quiser?
Ele apenas sorriu.
― Consegue falar como adulto?
Respondeu com uma frase engraçada, imitando um sotaque português. Prossegui com o interrogatório:
― Você é uma figura de sonho?
Com esta pergunta, desapareceu. Procurei-o na escuridão da sala de estar e logo escutei o sussurro:
― Fale mais baixo.
Ressurgiu como um grande vulto disforme e me atraiu para o corredor. Quando voltou a falar, estávamos os dois deitados no chão. Era um recém-nascido.
― Eu sou ― as últimas palavras, balbuciou lentamente, como se eu as colocasse em sua boca ― um cordeiro de deus.
― Mas o que é um cordeiro de deus?
Ele falava, mas não tinha cabeça e nem cicatrizes no pescoço fino de bebê:
― É um imortal na areia.

Não é a primeira vez que ponho um personagem de sonho contra a parede, e ele, como se despertado de um transe, me responde num tom religioso.

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Área de serviço

Foi quando estendia roupas na área de serviço que a menina tímida percebeu o olhar triste do menino, enquadrado pela janela nos fundos do prédio vizinho. Reparou sua presença nos dias seguintes, sempre pela manhã. Sem pensar no porquê, passou a estender as roupas sem roupa, sua nudez protegida por um parapeito providencial. Olhava o menino de canto de olho e não percebia qualquer reação. Numa dessas manhãs, tomou um susto quando viu o menino triste de corpo inteiro, desta vez agachado no peitoril rodeado de limo. Sem pensar no porquê, armou a escada de ferro que ficava encostada num canto, subiu até o último degrau e, muito séria, fingia trocar uma lâmpada.

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Pirueta

Era uma vez um esquizofrênico que, num golpe de mestre, interpretou a ilusão do cotidiano como conto de fadas. Com sua recém-adquirida presença de espírito, logo ficou rico e casou com a princesa.

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Transtorno de Despersonalização (DSM-IV: 300.6)

O silêncio então, num suspiro, impregnou seus sentidos. O corpo, assim preenchido, trabalhava com cerimônia, sem mais o despojamento da solidão. Apanhou um pequeno objeto no peitoril e deu dois passos lentos para trás, o olhar perdido na delicadeza meticulosa dos movimentos de sua mão. Escorregou numa conta de telefone, esbarrou ― sabe-se lá ― numa cadeira e despencou uma queda espetacular. Por muito pouco o silêncio não lhe sai pelos poros. Deitada no piso de taco entrelaçado em dois tons, sorria, em parte encantada pela trivialidade daquele incidente. Como se tudo transbordasse significado, sorria também de pudor diante dos olhares no porta-retrato, ainda firme em sua mão direita.

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Keitai

Estava a moça de óculos escuros acomodada numa mesinha de lanchonete, sua atenção mergulhada num emaranhado de menus de um telefone celular quando, das profundezas do cotidiano, emerge um estranho que lhe pede licença para comer o resto de torta que havia deixado sobre a mesa. A moça desvia o olhar rapidamente, vê tratar-se de um jovem bem vestido e faz com a cabeça que sim, antes de retornar aos menus. Ele senta na cadeira vizinha e, com o garfo descartável, raspa com cuidado a cobertura branca separada no canto do pires. Comenta de passagem, o creme ainda derretido na boca:
― Hmm… sua saliva… ácida, levemente adocicada.
Levanta, despede-se da moça com um beijo no cocuruto e, num fenômeno inverso à sua chegada, desaparece na bruma do dia-a-dia. Ela, sem tomar conhecimento:
― Alô? Desculpe a demora. É que enquanto eu procurava seu telefone, um estrupício inclassificável me tirou a concentração.

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Novas

Venho da rua e trago duas notícias, uma boa e outra ruim. A boa é que aquele problema está resolvido. Seu sofrimento, porém, não. E aí está a má notícia. Pois este mal que lhe aflige, minha criança… chegue mais perto para que eu possa lhe acariciar os cabelos… este mal se chama existência.

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Linha direta

O cidadão estava tão chateado da vida
que inventou de matar dois:
a mulher,
depois ele mesmo, logo em seguida.

Pesquisou uma bela arma,
esperou dias, que paciência!
até a noite macabra
em que perdeu sua inocência.

Entrou de fininho no quarto,
deu dois tiros na mulher,
saiu bufando e urrando de ódio
e mirou, na cabeça, um ponto qualquer.

Não sei se por falta de experiência
ou por pura afobação
(lembre-se que o homem saiu urrando)
os tiros saíram assim-assim:

um torto, meio de raspão,
outros dois, nem de longe fatais.
Sei que os dois sobreviveram
e não se separam mais.

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Mecanismo de busca

Sonho ou não, o certo é que seu corpo zumbia como se ronronasse. Formigava tanto que mal tinha controle dos movimentos. Num grande esforço de vontade, flutuou até a sala e escreveu, tecla após tecla no campo “pesquisar”, a expressão mirabolante que lhe invadia o pensamento:

p
r
o
j
e
ç
ã
o

e
x
t
r
a
c
o
r
p
ó
r
e
a

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Um é demais

A ligação durou quase uma hora. Numa faxina mais séria, o velho colega de faculdade havia encontrado seu telefone na aba de um envelope, a meio caminho da lixeira. Apesar dos anos, a conversa fluiu com facilidade. O amigo mais ouviu do que falou e se despediu sem planos ou promessas. Com o fone ainda no ouvido e o indicador paralisado no gancho, comoveu-se com o encontro desinteressado. Lembrou, em seguida, que nada acontece de graça. Bateu o telefone e limpou o sorriso bobo da face. Aquele lá, no mínimo, estava em busca de momentos agradáveis na companhia de uma voz familiar.

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Nós

Não há o que esconder. Somos variações de uma única criatura, apenas posta a atuar em circunstâncias diversas. Nossa dissimulação não é nociva por seus desdobramentos, mas pela energia que nos obriga a desperdiçar.

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Analfobeta

Recém-alfabetizada, a garotinha ataca o irmão caçula:
― Você é analfobeta.
― Sou nada. Você é que é.
― Nem sabe ler.
― Sei, sim.
― Não sabe fazer nada.
― Eu sei, sim.
― Sabe fazer o quê?
― Eu sei desenhar o dinossauro de fogo da terra desconhecida.
― Isso não é fazer. Você sabe só mexer nas coisas.
― …
― Eu sei fazer. Eu sou menina, e menina faz filho.
O menino pensa, olha para baixo, coça a cabeça e então fulmina:
― Eu sei fazer xixi e cocô.

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Guerra

Sem motivo, a porta que dava para o banheiro amanhecera de ponta-cabeça. Acima da maçaneta ― que agora ficava à esquerda ―, em lugar da simpática interrogação havia um buraco de fechadura invertido, que mais parecia um ponto de exclamação. O momento era solene. Bem diante de seus olhos, quiçá pela primeira vez, numa simples intervenção o universo quebrava suas inquebráveis regras.

Desconfiado do acaso, não ousou abrir a porta. Do lado de lá esperava absolutamente tudo, menos um vaso sanitário. Seu sentido de liberdade se esvaía junto com as leis. A antiga disciplina da natureza agora lhe parecia um benevolente estado de distração. O universo resolvera, então, ameaçá-lo com ações deliberadas. Tomou como declaração de guerra: o monstro autista estava acordado.

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Corta!

Ah, se ele soubesse o mal que havia feito: num contato telefônico ― plenamente dispensável, com o perdão da honestidade ― interrompeu a moça em casa. Sozinha. Adorável. No auge de uma cena de dança ― como poucas, memorável.

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Óptica

Acordou era fim de tarde. Delicados fachos de luz amarela invadiam a sala, enfileirados em larguras desiguais pelo crivo das frestas na janela. Deitado no sofá com olhos recém-abertos, via luzes que se moviam e cortavam o teto num plano horizontal, até caírem bruscamente em ângulo reto pela parede, como uma cachoeira. Em pensamentos vagos, superpostos, lembrou-se de fragmentos do dia anterior. Tudo lhe parecia tão inverossímil ― a arquitetura, a geometria daqueles fachos de luz, os pequenos detalhes de comportamento das pessoas em sua memória ― que duvidou se estaria mesmo acordado no curso principal de sua existência. Levantou-se e vagou até a cozinha. Grudado na geladeira por um ímã de pizzaria, um recado com data, nome e número de telefone. Chegou a discar o prefixo, mas desligou o aparelho logo em seguida. Resolver um compromisso em tal estado de coisas lhe parecia tarefa insignificante. Mas como o dia insistisse num encadeamento de sensações e imagens que ― não restava dúvida ― lhe era bastante familiar, olhou para o recado na geladeira, memorizou o número numa breve melodia e tornou a discar.

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Mãos de deus

Os objetos ficavam dias e dias jogados pela casa. Fosse uma revista esquecida com displicência na mesa da cozinha, alguns discos espalhados no sofá, ou mesmo uma caixa de leite largada pela metade num compartimento incomum da geladeira. Era incapaz de macular os rastros da presença alheia. Tinha dificuldade especial com vestígios de hábitos que não eram os seus, como o cinzeiro sujo que ficou um ano inteiro no peitoril. Certa vez, passou quase uma semana tomando banho de água fria ― coisa que fazia em mil etapas, e com imensa dificuldade ― só porque o chuveiro um dia apareceu regulado assim. O fato é que sempre que mexia nas coisas com as próprias mãos, era como se delas retirasse a alma. Até sua escrita o incomodava ― o fluxo dos pensamentos e a caligrafia eram de uma familiaridade desoladora. Mas haviam exceções. Não se incomodava com a maneira que deixava as coisas nos momentos de pressa. Nessas ocasiões, sua distração o camuflava num estranho. Objetos quebrados por acidente também tinham significado especial. O relevo de uma peça quebrada, o traçado irregular de uma rachadura, ou o formato aleatório de um estilhaço possuíam um frescor que o arrebatava.

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Visita

Cambaleava em direção à porta, a tropeçar nos móveis e sapatos pelo caminho. Fora acordado em plena madrugada pela campainha. As luzes estavam apagadas e, para completar sua sorte, tinha um dos pés ainda atolado num sonho. Quando finalmente alcançou a porta, seu corpo gelou ao escutar um sussurro alto vindo de fora:
― Oi, meu nome é Getúlio. Sou aquele menino magro de sunga verde com quem você brincou numa piscina de hotel quando tinha sete anos, lembra de mim? Não se assuste, preciso muito falar com você.

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Transgressão

― Fique aí enquanto o papai vai comprar o jornal.
Com um beijo na testa, deixou o filho sentado no banco da praça e partiu atrás do jornaleiro, que já ia longe. Ao menino, só restava esperar. Viu o pai caminhar quinze metros, passar rente a um grande cavaleiro de bronze, acelerar o passo ― assustando, com isso, dois ou três pombos ―, virar à direita num chafariz e parar no meio-fio. Sumiu entre as pessoas ao atravessar uma rua movimentada. O menino ficou assombrado. Aos quatro anos, era a primeira vez em que se via inteiramente só num lugar público. Queria muito chorar, mas recuperou a compostura em tempo de arquitetar uma idéia promissora: subiria no banco para conseguir uma visão de cima. Logo que colocou os pés no assento, percebeu que havia um velhinho sentado ao seu lado. Esqueceu-se do pai. Agora que estava por si, fora tomado por um profundo senso de responsabilidade que até então lhe era estranho. Tomou consciência de que não apenas estava de pé no banco, como de que o fazia com os pés calçados e num par de tênis imundo. Envergonhado pela transgressão, ficou vermelho dos pés à cabeça e pediu desculpas. E o velhinho, semidistraído:
― Meu filho, você acha que alguém se importa com isso?
Aquilo foi, para o menino, uma revelação.

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Minuto da Saudade

Hoje vamos explorar um detalhe casual de sua vida ― a época.

Você vive em meados da primeira década do século XXI, um ponto perdido numa linha de tempo imaginária. Todos aqueles que, como você, respiram neste instante, são testemunhas do mesmo fragmento desta linha imaginária. O preciso momento em que você lê estas palavras é uma lembrança e, como toda lembrança, já é digno de saudade. Se você é um motorista habilitado e tem acesso a um automóvel equipado com toca-fita ou qualquer tecnologia de reprodução sonora popular em sua época, pode fazer esta experiência.

Com os ouvidos descansados, sente-se no banco do motorista e ponha pra tocar um disco de música eletrônica histérica, desses progressivos, cheios de excessos e passagens elaboradas. Aumente o volume e rume para a cidade mais próxima. Enquanto dirige, preste atenção em cada passagem da música: nos ruídos que precedem as vozes misteriosas, nas vozes misteriosas que precedem a pausa climática, na pausa climática que precede a introdução bombástica, e siga adiante. Tenha o cuidado de não fechar os olhos, pois em tais circunstâncias nosso pequeno experimento tende a tomar um rumo mais intenso do que o desejado. Pelo contrário, mantenha os olhos bem abertos a observar tudo ― os cachorros, as árvores, os prédios, as placas de publicidade, a dança dos carros e das pessoas em trânsito ― com uma curiosidade alienígena.

O truque está em subverter a sensação do agora, em transformar a eletricidade do momento presente num fragmento nostálgico da história. Lembre-se que, daqui a vinte anos, a moda atual lhe será tão incompreensível quanto hoje é a moda de vinte anos passados. É como assistir a um documentário. No pára-brisa estão as imagens, e no toca-fita, a trilha sonora de época.

Para completar, se o espírito for propício, encoste e ofereça carona a um terráqueo que lhe cause empatia. Facilite a conversa e deleite-se com o frescor de palavras e trejeitos encharcados de agora.

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João & Néri

CENÁRIO
Escritório mal iluminado de edifício comercial, início de noite.

PERSONAGENS
Cabral
João
Néri

Enquanto encerra o expediente, Cabral é surpreendido por dois estranhos à sua porta. Um grande como um armário, o outro franzino, seu contrário.
JOÃO: Boa noite e desculpe a intromissão.
CABRAL: Opa!
JOÃO: Que mal lhe pergunte, vocês têm cartão?
CABRAL: Só um minuto.
Com sua costumeira diligência, Cabral abre a segunda gaveta de baixo pra cima. Mexe e remexe seus velhos papéis em busca do bendito cartão. Ainda atordoado com a súbita aparição, não resiste à pergunta:
CABRAL: Mas quem são vocês?
JOÃO: Desculpe, é que entramos de supetão.
Os dois estendem as mãos direitas.
NÉRI: Meu nome é Néri.
JOÃO: E eu sou o João.
Fazem os cumprimentos e, com a mão esquerda, Cabral saca o cartão de visita, que de tão maltratado, devia ser o último.
JOÃO: Estamos na sala vizinha, num curso de automação.
Com os dedos avantajados em pinça, João recolhe o cartão. Abre a boca e o coloca com cuidado sobre a língua. Fecha a boca e espera alguns segundos em silêncio. Retira o cartão e, sem olhar, arremata compenetrado:
JOÃO: O telefone é 2483810. A firma é Cabral Investigação.
Néri intercepta o cartão e põe os óculos de leitura.
NÉRI: Confere.
Enxuga o cartão na gola pólo verde água, pois agora é sua vez de introduzi-lo na boca. Assim como João, permanece algum tempo neste pitoresco estado. O telefone toca e Cabral, de pronto, atende:
CABRAL: Cabral Investigação, boa noite!
Silêncio. Cabral insiste, um tanto irritado.
CABRAL: Pronto? Alô?
VOZ: Por favor, não se altere.
Apesar de abafada do outro lado da linha, Cabral reconhece a voz aguda de Néri. Olha para ele, que apenas sorri de satisfação. Cabral jura que Néri continuava a sorrir com o cartão na boca quando a mesma voz, dos confins do telefone, arrematou:
VOZ: Tudo ― nome e número ― confere.

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Eminência

A percepção de si mesmo como coadjuvante lhe causava enjôo. No espetáculo da vida, almejava a não menos que espetacular condição de protagonista. Em épocas de pouca ambição, contentava-se ainda com o reconhecimento nos círculos de prestígio. Agora já não tinha tempo para jogar fora. Não moveria um músculo pelo que não lhe atribuísse, no mínimo, a aura daquele sob o qual todos os outros não passam de figurantes: Jesus Cristo, Nosso Senhor, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Protagonista dos Protagonistas.

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Iminência

Após agradável refeição, Pedro bebe uma xícara de café. Não uma xícara qualquer. Esta, por capricho do acaso, resultou de uma feliz combinação de ingredientes, proporções e circunstâncias climáticas. Mas Pedro não está em condições de desfrutá-la, visto que Pedro é mais uma vítima da Síndrome da Eterna Iminência.

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Direita da Piedade

Cedo pela manhã, na praça da Piedade, alguns fiéis retornam ao trabalho depois do feriado de Nossa Senhora Aparecida, enquanto outros vão para a missa nas igrejas de São Pedro e da Piedade. Um vendedor de café atende um freguês. A um só tempo, derrama café com leite num copo plástico e alfineta um rapaz sentado ao seu lado:
― Ô seu sacana preto, você dormiu comigo pra não me dar bom dia?
O amigo interrompe a conversa em que estava entretido e responde com um sorriso amistoso. Um mais espirituoso pergunta a todo volume:
― Dormiu com ele?
Encorajado pela intervenção do outro, um senhor de óculos que observava a tudo em silêncio decide se manifestar:
― “Sacana preto”?

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Miau

Apartamento escuro, ruído de chave na fechadura. Quem abre a porta é uma jovem de seus vinte e cinco anos. Permanece imóvel na entrada por quase um minuto sem largar a maçaneta. Sua expressão é a do mais completo desânimo. Entra, ignora os interruptores, larga a bolsa numa cadeira e senta com displicência no assoalho, as costas apoiadas na parede. Um gato surge da escuridão e pula nas suas pernas. Mia baixinho e esfrega a cabeça em sua mão. Ela:
― Você tem sempre que ser assim tão… superficial?

Padrão

Transtorno

― Alô?
― Alô, Maria Inês está?
― Quem fala?
― É o amante dela.
― (pausa)
― Não é verdade, desculpe. É que tenho um transtorno compulsivo que me obriga a pôr pra fora qualquer frase impertinente que me venha à cabeça.
― É um transtorno ridículo, este seu.
― Sou forçado a concordar.
― Alguma vez já foi espancado por conta disto?
― Ah, muitas.

Padrão

Sintonia fina

Há um ponto fugidio
entre presença de espírito e indiferença,
entre inquietude e serenidade,
entre sorriso e desencanto,
que se acomoda confortavelmente
à linha que separa,
numa simples interação elétrica,
a vida da morte.

Padrão

Musica Antiqua

Quero ligar o rádio e escutar o ranger de couro, madeira, ossos e metal retorcido. Quero ligar a TV e contemplar criaturas confusas que vagam sobre a terra a guinchar. Quero abrir o jornal e apenas imaginar um sentido para tamanha profusão de símbolos ― fósseis de uma geração humana. Quero olhar no espelho e deparar com o cadáver que está sempre à espreita. É preciso curar a anemia de uma certa forma de perceber. É preciso redescobrir o horror da existência.

Padrão

Tóti e Leno

No tempo em que os bichos falavam, as crianças eram verborrágicas. Os irmãos Tóti e Leno brincam no parquinho com o amigo Zezé e sua irmã Soraia.
ZEZÉ: Xi, minha mãe chegou. Tenho que ir. Até logo, pessoal.
TÓTI e LENO: Tchau!
SORAIA: Tchau!
Dão as mãos e seguem caminho. Da escorregadeira, Tóti pergunta:
TÓTI: O que você acha desta irmã dele?
Lá do alto, um Leno já meio tonto segura firme no balanço:
LENO: Soraia? Não sei, acho que ela é legal.
TÓTI: É estranha.
LENO: Deve ser o corpo. Parece de mulher.
TÓTI: Já é adulta?
LENO: Que nada. É a irmã mais nova do Zezé. Mais nova que a gente.
TÓTI: Nunca consigo ficar à vontade com aquela menina.
LENO: Mas ela tem jeito de criança.
TÓTI: É. Jeito de criança, tem. Mas com aquele corpo, a natureza parece lhe impor segundas intenções.
LENO: (Esforçando-se para interromper o movimento do brinquedo) Ela o atrai?
TÓTI: Acho que ainda não tenho idade pra isso. Com certeza me constrange.
LENO: Pensando bem, deixo de fazer umas coisas quando estou perto dela.
TÓTI: Tá vendo?
Sempre o mais atento, Tóti percebe uma silhueta familiar à distância.
TÓTI: Vamos, que o papai chegou.
Escorrega, pendura a camiseta suada no ombro e estala os dedos para o cãozinho:
TÓTI: Vamos, Rex!
REX: Opa!

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Esquete cômico: Elvis

Canastrão vestido de Elvis. As situações mais banais evoluem até culminarem num grave dilema moral para o personagem. Logo antes de cometer o ato em questão, entre culpa e prazer, decepção e euforia, vira para o espectador e declama seu bordão. Em inglês, com uma mão na cintura, o próprio Elvis Aaron Presley:
Sorry, babe. I just had to do it.

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Primeiro dia

É um eterno primeiro dia, em que a única lembrança do dia anterior está cifrada na conexão vertiginosa que temos com nós mesmos. Nosso corpo, acostumado que está ao prazer básico do contraste, confunde esta conexão com o descontrole da queda e, ao pressenti-la, desarma-se como um disjuntor.

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Contratempo

Coisas que acontecem no contratempo
Não se sujeitam ao consenso
Ficam no fundo
Enquanto o resíduo perece
Sabedorias feitas na manga
Servem ao estado presente
Ficam distinto(s)
Enquanto a maioria embarga
Se a relação do contratempo
E do tempo presente
Assimilarem
Não se precisava de viagens (asm)(cosm)áticas
As teorias seriam atendidas
Mas a inteligência limita a autonomia humana

TREBELJAHR, Valeria & Lali Puna. Contratempo. In: Scary World Theory. Berlim: Morr Music, 2001.

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II intenção

Era de tal forma honesto que jamais ultrapassava a primeira intenção. Guardava a segunda para momento mais apropriado, e as intenções restantes, distribuía em intervalos regulares ao longo dos dias. Sempre uma de cada vez, em momentos não menos que apropriados.

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Mal súbito

Foi absolutamente surpreendido pela carroceria. O motor estava ligado, mas não lhe ocorreu que o vulto no banco do motorista pudesse se distrair como se distraiu. Deve ter soltado a embreagem com a ré engatada, pois a caminhonete deu um coice seguro para trás. Um movimento curto, só o bastante para que seu tronco fosse esmagado contra a árvore no canteiro. A dor que se seguiu foi, para ele, de uma intensidade até então desconhecida. Antes que pudesse percebê-la, observou-se com vívida curiosidade. Tinha um brilho estranho nos olhos quando sussurrou fascinado:
― Está acontecendo…

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Pequeno mal

Ruminava problemas corriqueiros quando intoxicou-se com um perfume familiar. Acordou do transe, observou as pessoas à sua volta e, num lapso de presença, flagrou-se mais uma vez surpreendido pela peculiaridade de estar vivo.

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O amor

O amor não passa dum formigamento nas zonas superiores do corpo, especialmente na altura do coração. Não é direcionado a nada ou a ninguém em específico, e até o momento sua utilidade é desconhecida. Tem como único efeito um estranho contentamento com a existência.

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A voz

Naquela noite, o tolo dormiu um sono profundo e sem sonhos. A manhã já se anunciava quando a misteriosa voz irrompeu do negrume infinito de seu inconsciente:
― Nesta vida, és vítima ou viajante?
Na mesma manhã, o pobre tolo fez as malas, procurou uma agência de viagens, comprou passagem para os confins da África e correu para o aeroporto. Foi visto pela última vez duas horas antes do vôo, na fila de check-in de uma companhia aérea.

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Lições da Escuridão

1. Os fatos às vezes têm um poder estranho e bizarro que faz sua verdade inerente parecer inacreditável.
2. Fatos criam normas, e verdade cria iluminação.
3. Há camadas mais profundas de verdade, e existe algo que podemos chamar de verdade poética ou arrebatadora. Esta é misteriosa e evasiva, e pode ser atingida apenas por meio da fabricação, da imaginação e da estilização.

Arrancado da Declaração de Minnesota, de Werner Herzog.

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Soledade


Soledade,
galinha de verdade.
Cisca no concreto
e bota ovo na cidade.

Com tanta qualidade,
uma particularidade:
adora cumplicidade,
é viciada em microssegundos de intimidade!

Ilustração: Rex

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Cine-foto-som

E tem aquela da consumidora cidadã que chegou toda espaçosa numa dessas bibocas de cine-foto-som. Já entrou apontando para uma minúscula engenhoca que repousava sobre uma prateleira forrada de camurça vermelha na vitrina:

― iPod?

Era fim de expediente, e o vendedor enxergou naquela criatura perfumada a insolência em pessoa. Sentiu um arrepio na espinha, como se tivesse finalmente encontrado uma velha inimiga. Para ele, a mulher que o encarava a poucos centimetros era ninguém menos do que a autora e única responsável por todos os males sociais da história da humanidade. E que, não satisfeita com seu rastro de destruição, ainda tinha a audácia de importuná-lo com sua voz aguda ao final de um dia tão cansativo. Desprevenido, rodeado de badulaques com cantos arredondados e sem um único objeto perfurante à mão, muniu-se do primeiro trocadilho barato que lhe subiu à mente:

― Pode não, minha senhora. Não viu na televisão? O presidente baixou um decreto que inverteu tudo. Agora quem é miserável pode, e quem tem dinheiro, não. Pra senhora só tem aquele radinho AM de pilha ali, tá vendo?

A consumidora nem se dignou a responder. Imóvel, seus olhos vasculhavam as paredes do estabelecimento à caça de um cartaz com o telefone do Procon. Enquanto isso, sua mão direita, que não parava de tremer, tateava a bolsa de couro em busca de uma outra engenhoca muito, mas muito parecida com aquela da vitrina.

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O corpo fala

― Psiu!
― Hã?
― Você mesmo.
― Onde está?
― Difícil explicar. Digamos que sou uma voz. Sabe quando se diz que alguém ouve vozes?
― Ah.
― Está com medo?
― Medo não, mas uma sensação engraçada. Isto nunca tinha me acontecido.
― Como está a transmissão? Consegue distinguir minha voz dos seus próprios pensamentos?
― Sim, sim. As palavras surgem espontâneas. Além do mais, não parecem brotar da cabeça, é como se emanassem do corpo inteiro.
― Posso me concentrar na cabeça, se isto lhe parece estranho.
― Não, por favor. Gosto da sensação. É de uma sutileza que até me causa prazer.
― Ótimo. Quer experimentar um outro jeito, então?
― Como seria?
― Feche os olhos e conte até nove e meio.

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9,5

― Não ouço mais palavras… é tão compreensível e abstrato ao mesmo tempo… desculpe, é que estou tão acostumado com as palavras… vou tentar, mas podemos continuar um pouco mais devagar, por favor? Assim acho que vou gozar.

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Secos & molhados

Concentrava-se em não-sei-quê, os olhos fixos na tela do computador. Pelo vidro molhado da janela, os carros passavam, mudos. Apenas o barulhinho das teclas perturbava o silêncio. A perspectiva de concluir sua atividade não lhe trazia qualquer emoção ou expectativa. Sentia-se parte de um enredo que se desenrolava eternamente, com discretos altos e baixos talvez, mas sem clímax.

Eram três-e-qualquer-coisa quando, tomado por uma tristeza sem motivo, subiu as escadas e tombou no carpete empoeirado do mezanino. De olhos fechados, imaginava uma espessa nuvem de pó ao seu redor. As poucas lágrimas vieram como um presente inesperado. Desejou afundar naquele sentimento, mas julgava-se incapaz de tamanha entrega. Sua concentração era frágil, sabia que ao menor estímulo abandonaria o delicado desespero. Seria um telefonema ou um pensamento qualquer, era questão de tempo.

Começavam os primeiros sinais de desconforto. Estava de bruços e podia sentir a pressão de suas costelas contra o carpete. Mal adaptava-se à situação, toca o telefone. Levantou, desceu as escadas e atendeu. Era um sujeito não-sei-de-onde, a mando de não-sei-quem. Um tanto apressado, precisava saber a que horas terminaria não-sei-quê para que fosse entregue, sem falta, não-sei-onde.

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Intransigência

Sua intransigência o irritava. Mas foi a coragem, enraizada no mesmo ponto de onde brotava a intransigência, que tornou possível um beijo. Beijo cujo ímpeto desabrochava no ponto exato em que começava a doçura. Doçura que anulava a irritação que tinha por sua intransigência.

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O Monstro

Pelas margens sagradas do Eufrates, que fugia, então, sem espuma e sem ondas, caminhavam, na infância maravilhosa da Terra, a Dor e a Morte. Eram dois espetros longos e vagos, sem forma definida, cujos pés não deixavam traços na areia. De onde vinham, nem elas próprias sabiam. Guardavam silêncio, e marchavam sem ruído olhando as coisas recém-criadas.

CAMPOS, Humberto de. O Monstro e Outros Contos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1932.

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Conto erótico

Foi num impulso que ela propôs sexo ao desconhecido. Apenas alguns minutos antes sentira uma onda de ternura subir pela espinha. Observava-o conversando com um amigo dois assentos à frente e, num lapso de segundo, percebeu nele um movimento ― um detalhe mínimo na expressão ― que a fez lembrar de um animalzinho indefeso. Ficou comovida com a idéia de sua mortalidade e teve vontade de acariciar seus cabelos. A vontade cresceu e virou dilema. Como pedir a um desconhecido que se deixasse tocar com carinho? O amigo já havia descido do ônibus e ela o olhava fixamente, perdida. A essa altura, o dilema já crescera, era agora obsessão. E ela estava tão ansiosa que um simples cafuné parecia pouco.

No momento em que um vendedor, com a permissão do motorista, enaltecia as qualidades de um punhado de pastilhas de hortelã que transportava num tabuleiro, há muito ela já havia ocupado o assento vazio ao lado do desconhecido. Sua obsessão agora já não lhe parecia tão estranha. O descompasso entre sua mente e o mundo exterior havia se desfeito por completo com o o discurso mecânico do vendedor, que se misturava a seus pensamentos e dissolvia qualquer ilusão de ordem ou coerência no ambiente. Era o incentivo de que precisava. Quando ela finalmente fez a proposta, após uma pausa demorada, foi presenteada com um sorriso.

Concordaram em descer do ônibus a alguns quilômetros do apartamento dela. Precisavam de distância, pois o tempo da caminhada era tudo de que dispunham para que se tornassem cúmplices.

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Impessoalidade

A natureza é de uma impessoalidade reconfortante. O mar faz o que deve fazer, não dá a mínima importância ao que se faça com sua água, areia, peixes ou pedras. Está sempre em ação e, ao mesmo tempo, generosamente aberto a interferências. Um poste de concreto, também, nunca nos desaponta. Pode servir de abrigo, de apoio, de superfície para escrever ou desenhar. Com força, habilidade e as ferramentas apropriadas, deixa-se derrubar com facilidade e oferece apenas a resistência natural do material que o constitui. Apesar do contra-senso, as pessoas ― como parte da natureza ― também carregam esta impessoalidade. Não é tão fácil perceber, a menos que sejam observadas de uma certa distância.

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Amostra

Para ser lido no meio do deserto, ao som de uma banda de hard rock, dessas de propaganda de cigarro.

Pense na expressão de um cadáver
Pense no que falta para ele estar vivo
E guarde este pensamento

Pense num sentimento
Pense como todo sentimento é compreensível
Seja ele de qualquer ser humano, em qualquer momento da história
E guarde este pensamento

Agora lembre-se daquilo que nos torna vivos
E fique atento para sua sensação neste exato instante
Perceba que ela não é nova
E deixe esta familiaridade lhe preencher

Você é uma amostra
Quanto mais tenta se afastar
Ou mesmo se aproximar de alguém
Mais você toca em si mesmo

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Besitos

Temos um arsenal de recursos para parecermos informais. O uso de expressões em outras línguas é um desses singelos esforços para colorir a comunicação. Servem para representar segurança e desenvoltura, é um pouco como cantarolar quando se está nervoso. Quando seu uso já está tão incorporado à fala que é automático, perde a exuberância calculada e sai seco como um espasmo. “Hasta la vista”, “Besitos”, “Yah”. É como se, num minúsculo gesto, declarássemos “sou descontraído e tenho um ótimo senso de humor. Não sou como esses que ficam reclamando da vida, comigo você pode ficar tranqüilo, pois não vou dar trabalho”. Não seria estranho se alguém, após um inocente “arigatô” do amigo, discretamente marejasse os olhos.

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Festa

― Oi!
― Oi.
― Tudo bem?
― Tudo.
― Você está bem?
― Tudo bem.
― Não parece. Vai, pode me contar.
― Não vale a pena.
― Ou conta ou grudo em você até a festa acabar.
― Esse é o problema. Não vale a pena se não estiver disposta a ser toda minha.
― Você… está apaixonado por mim?
― Eu não estou apaixonado por você.
― Agora que me deixou envergonhada, o mínimo que pode fazer é continuar.
― Desculpe a falta de tato, é que não tenho mais estômago pra encontrar pessoas e significar tão pouco pra elas. Seria desperdício qualquer esforço pra manter uma conversa agora. Já basta a energia que gastei pra chegar aqui. Com o único propósito de não sumir completamente da vida das pessoas.
― Como assim? Todo mundo te adora. Ou você está deprimido ou bêbado.
― O que disse agora… sua intenção é me deixar pra cima. Quando sentir que conseguiu, se dará por satisfeita. Não vai ser difícil, já que vou colaborar, pois quero ficar só e sem o peso de sua preocupação. Assim que perceber minha melhora de humor, vai sentir-se livre para conversar com outras pessoas. E não deve demorar até que alguém se aproxime e puxe conversa. Não me entenda mal, não terei ciúmes. Na verdade, ficarei muito satisfeito quando encontrar outro, pois não carregarei mais o fardo de sustentar nosso diálogo. Compreende por que seria ridículo se eu sentisse ciúmes? O que você tem a oferecer, a mim ou a qualquer outro aqui, por mais íntimo que seja, são migalhas. E acredite, você não é insignificante. O mais triste é que gosto muito de você. No momento em que alguém se aproximar, aproveitarei a oportunidade pra me afastar.
― Espere. É confuso, mas compreendo o que você diz. E tenho medo. Por que tudo me traz uma sensação de responsabilidade enorme, maior do que posso suportar. Não porque você não valha a pena. Pelo contrário, sei que me empolgaria demais depois de nossa conversa. Mas me conheço bem pra saber que nada iria mudar de verdade, o que só seria motivo de frustração. Preciso de sua ajuda. Quero que nunca mais falemos sobre isso. Sempre que estiver ao seu lado, quero me sentir inteiramente confortável, com a certeza de que você nunca irá me pressionar ou me julgar por ter tomado esta decisão. Pode fazer isto?
― Claro.
― Mais uma coisa. A qualquer momento, alguém vai aparecer e puxar assunto. Quero que você se esforce para manter a conversa interessante. E que traga outras pessoas para perto e, ao meu lado, conduza a situação para que todos comecem a falar e rir ao mesmo tempo. Cada vez mais, lentamente, até que, no meio do barulho, com nossas cabeças ocupadas pela conversa e tontas pela bebida, não pensemos em mais nada.

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2001

Como qualquer gato, barata ou passarinho, somos bichos. Nem toda a ciência disfarça nossa natureza de animais curiosos revirando o terreno. A maneira encontrada pelo homem para registrar sons é um processo fascinante e grosseiro. Alguém fala numa corneta ligada a uma membrana com uma agulha no meio. Com o movimento do ar, a membrana vibra e a agulha risca o sinal num cilindro revestido de estanho que gira. Para reproduzir, basta fazer o processo inverso: gira-se o cilindro, a agulha passa pelos riscos, vibra a membrana e ― acredite ― o som sai pela corneta. Pouco mudou até hoje. A tecnologia digital, que também é usada para registrar o som, é um aperfeiçoamento dos antigos cartões perfurados, uma forma fascinante e grosseira de registrar sims e nãos. Se o analógico é uma ladeira, o digital é uma escada: nela, pode-se registrar em que altura a pessoa está ao dizer sim para o degrau atual e não para todos os outros. Com o som é a mesma coisa, basta informar constantemente a intensidade com que a membrana deve vibrar. Quanto menor o intervalo entre cada informação, melhor o resultado. É um processo precário mas engenhoso de imitar a natureza, que só é prático se for possível registrar tamanha quantidade de informação num espaço pequeno e com leitura rápida. É aí que entra o computador, um artefato fascinante que reúne invenções grosseiras com muita eficiência.

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Tarde da noite

Tarde da noite, por conta própria, sua cabeça descobre o que está errado com sua vida e o que você pode fazer para mudá-la (eu, por exemplo, já fiquei fascinado com a idéia de que todos os meus problemas se resumiam à preocupação excessiva com o que os outros pensam). No dia seguinte você acorda e lembra, otimista. Depois do almoço, já não compreende e conclui que na noite anterior você não passava de um idiota empolgado.

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