2001

Como qualquer gato, barata ou passarinho, somos bichos. Nem toda a ciência disfarça nossa natureza de animais curiosos revirando o terreno. A maneira encontrada pelo homem para registrar sons é um processo fascinante e grosseiro. Alguém fala numa corneta ligada a uma membrana com uma agulha no meio. Com o movimento do ar, a membrana vibra e a agulha risca o sinal num cilindro revestido de estanho que gira. Para reproduzir, basta fazer o processo inverso: gira-se o cilindro, a agulha passa pelos riscos, vibra a membrana e ― acredite ― o som sai pela corneta. Pouco mudou até hoje. A tecnologia digital, que também é usada para registrar o som, é um aperfeiçoamento dos antigos cartões perfurados, uma forma fascinante e grosseira de registrar sims e nãos. Se o analógico é uma ladeira, o digital é uma escada: nela, pode-se registrar em que altura a pessoa está ao dizer sim para o degrau atual e não para todos os outros. Com o som é a mesma coisa, basta informar constantemente a intensidade com que a membrana deve vibrar. Quanto menor o intervalo entre cada informação, melhor o resultado. É um processo precário mas engenhoso de imitar a natureza, que só é prático se for possível registrar tamanha quantidade de informação num espaço pequeno e com leitura rápida. É aí que entra o computador, um artefato fascinante que reúne invenções grosseiras com muita eficiência.

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