Conto erótico

Foi num impulso que ela propôs sexo ao desconhecido. Apenas alguns minutos antes sentira uma onda de ternura subir pela espinha. Observava-o conversando com um amigo dois assentos à frente e, num lapso de segundo, percebeu nele um movimento ― um detalhe mínimo na expressão ― que a fez lembrar de um animalzinho indefeso. Ficou comovida com a idéia de sua mortalidade e teve vontade de acariciar seus cabelos. A vontade cresceu e virou dilema. Como pedir a um desconhecido que se deixasse tocar com carinho? O amigo já havia descido do ônibus e ela o olhava fixamente, perdida. A essa altura, o dilema já crescera, era agora obsessão. E ela estava tão ansiosa que um simples cafuné parecia pouco.

No momento em que um vendedor, com a permissão do motorista, enaltecia as qualidades de um punhado de pastilhas de hortelã que transportava num tabuleiro, há muito ela já havia ocupado o assento vazio ao lado do desconhecido. Sua obsessão agora já não lhe parecia tão estranha. O descompasso entre sua mente e o mundo exterior havia se desfeito por completo com o o discurso mecânico do vendedor, que se misturava a seus pensamentos e dissolvia qualquer ilusão de ordem ou coerência no ambiente. Era o incentivo de que precisava. Quando ela finalmente fez a proposta, após uma pausa demorada, foi presenteada com um sorriso.

Concordaram em descer do ônibus a alguns quilômetros do apartamento dela. Precisavam de distância, pois o tempo da caminhada era tudo de que dispunham para que se tornassem cúmplices.

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