Secos & molhados

Concentrava-se em não-sei-quê, os olhos fixos na tela do computador. Pelo vidro molhado da janela, os carros passavam, mudos. Apenas o barulhinho das teclas perturbava o silêncio. A perspectiva de concluir sua atividade não lhe trazia qualquer emoção ou expectativa. Sentia-se parte de um enredo que se desenrolava eternamente, com discretos altos e baixos talvez, mas sem clímax.

Eram três-e-qualquer-coisa quando, tomado por uma tristeza sem motivo, subiu as escadas e tombou no carpete empoeirado do mezanino. De olhos fechados, imaginava uma espessa nuvem de pó ao seu redor. As poucas lágrimas vieram como um presente inesperado. Desejou afundar naquele sentimento, mas julgava-se incapaz de tamanha entrega. Sua concentração era frágil, sabia que ao menor estímulo abandonaria o delicado desespero. Seria um telefonema ou um pensamento qualquer, era questão de tempo.

Começavam os primeiros sinais de desconforto. Estava de bruços e podia sentir a pressão de suas costelas contra o carpete. Mal adaptava-se à situação, toca o telefone. Levantou, desceu as escadas e atendeu. Era um sujeito não-sei-de-onde, a mando de não-sei-quem. Um tanto apressado, precisava saber a que horas terminaria não-sei-quê para que fosse entregue, sem falta, não-sei-onde.

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