Cine-foto-som

E tem aquela da consumidora cidadã que chegou toda espaçosa numa dessas bibocas de cine-foto-som. Já entrou apontando para uma minúscula engenhoca que repousava sobre uma prateleira forrada de camurça vermelha na vitrina:

― iPod?

Era fim de expediente, e o vendedor enxergou naquela criatura perfumada a insolência em pessoa. Sentiu um arrepio na espinha, como se tivesse finalmente encontrado uma velha inimiga. Para ele, a mulher que o encarava a poucos centimetros era ninguém menos do que a autora e única responsável por todos os males sociais da história da humanidade. E que, não satisfeita com seu rastro de destruição, ainda tinha a audácia de importuná-lo com sua voz aguda ao final de um dia tão cansativo. Desprevenido, rodeado de badulaques com cantos arredondados e sem um único objeto perfurante à mão, muniu-se do primeiro trocadilho barato que lhe subiu à mente:

― Pode não, minha senhora. Não viu na televisão? O presidente baixou um decreto que inverteu tudo. Agora quem é miserável pode, e quem tem dinheiro, não. Pra senhora só tem aquele radinho AM de pilha ali, tá vendo?

A consumidora nem se dignou a responder. Imóvel, seus olhos vasculhavam as paredes do estabelecimento à caça de um cartaz com o telefone do Procon. Enquanto isso, sua mão direita, que não parava de tremer, tateava a bolsa de couro em busca de uma outra engenhoca muito, mas muito parecida com aquela da vitrina.

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