João & Néri

CENÁRIO
Escritório mal iluminado de edifício comercial, início de noite.

PERSONAGENS
Cabral
João
Néri

Enquanto encerra o expediente, Cabral é surpreendido por dois estranhos à sua porta. Um grande como um armário, o outro franzino, seu contrário.
JOÃO: Boa noite e desculpe a intromissão.
CABRAL: Opa!
JOÃO: Que mal lhe pergunte, vocês têm cartão?
CABRAL: Só um minuto.
Com sua costumeira diligência, Cabral abre a segunda gaveta de baixo pra cima. Mexe e remexe seus velhos papéis em busca do bendito cartão. Ainda atordoado com a súbita aparição, não resiste à pergunta:
CABRAL: Mas quem são vocês?
JOÃO: Desculpe, é que entramos de supetão.
Os dois estendem as mãos direitas.
NÉRI: Meu nome é Néri.
JOÃO: E eu sou o João.
Fazem os cumprimentos e, com a mão esquerda, Cabral saca o cartão de visita, que de tão maltratado, devia ser o último.
JOÃO: Estamos na sala vizinha, num curso de automação.
Com os dedos avantajados em pinça, João recolhe o cartão. Abre a boca e o coloca com cuidado sobre a língua. Fecha a boca e espera alguns segundos em silêncio. Retira o cartão e, sem olhar, arremata compenetrado:
JOÃO: O telefone é 2483810. A firma é Cabral Investigação.
Néri intercepta o cartão e põe os óculos de leitura.
NÉRI: Confere.
Enxuga o cartão na gola pólo verde água, pois agora é sua vez de introduzi-lo na boca. Assim como João, permanece algum tempo neste pitoresco estado. O telefone toca e Cabral, de pronto, atende:
CABRAL: Cabral Investigação, boa noite!
Silêncio. Cabral insiste, um tanto irritado.
CABRAL: Pronto? Alô?
VOZ: Por favor, não se altere.
Apesar de abafada do outro lado da linha, Cabral reconhece a voz aguda de Néri. Olha para ele, que apenas sorri de satisfação. Cabral jura que Néri continuava a sorrir com o cartão na boca quando a mesma voz, dos confins do telefone, arrematou:
VOZ: Tudo ― nome e número ― confere.

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Eminência

A percepção de si mesmo como coadjuvante lhe causava enjôo. No espetáculo da vida, almejava a não menos que espetacular condição de protagonista. Em épocas de pouca ambição, contentava-se ainda com o reconhecimento nos círculos de prestígio. Agora já não tinha tempo para jogar fora. Não moveria um músculo pelo que não lhe atribuísse, no mínimo, a aura daquele sob o qual todos os outros não passam de figurantes: Jesus Cristo, Nosso Senhor, Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Protagonista dos Protagonistas.

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Iminência

Após agradável refeição, Pedro bebe uma xícara de café. Não uma xícara qualquer. Esta, por capricho do acaso, resultou de uma feliz combinação de ingredientes, proporções e circunstâncias climáticas. Mas Pedro não está em condições de desfrutá-la, visto que Pedro é mais uma vítima da Síndrome da Eterna Iminência.

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Direita da Piedade

Cedo pela manhã, na praça da Piedade, alguns fiéis retornam ao trabalho depois do feriado de Nossa Senhora Aparecida, enquanto outros vão para a missa nas igrejas de São Pedro e da Piedade. Um vendedor de café atende um freguês. A um só tempo, derrama café com leite num copo plástico e alfineta um rapaz sentado ao seu lado:
― Ô seu sacana preto, você dormiu comigo pra não me dar bom dia?
O amigo interrompe a conversa em que estava entretido e responde com um sorriso amistoso. Um mais espirituoso pergunta a todo volume:
― Dormiu com ele?
Encorajado pela intervenção do outro, um senhor de óculos que observava a tudo em silêncio decide se manifestar:
― “Sacana preto”?

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Miau

Apartamento escuro, ruído de chave na fechadura. Quem abre a porta é uma jovem de seus vinte e cinco anos. Permanece imóvel na entrada por quase um minuto sem largar a maçaneta. Sua expressão é a do mais completo desânimo. Entra, ignora os interruptores, larga a bolsa numa cadeira e senta com displicência no assoalho, as costas apoiadas na parede. Um gato surge da escuridão e pula nas suas pernas. Mia baixinho e esfrega a cabeça em sua mão. Ela:
― Você tem sempre que ser assim tão… superficial?

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Transtorno

― Alô?
― Alô, Maria Inês está?
― Quem fala?
― É o amante dela.
― (pausa)
― Não é verdade, desculpe. É que tenho um transtorno compulsivo que me obriga a pôr pra fora qualquer frase impertinente que me venha à cabeça.
― É um transtorno ridículo, este seu.
― Sou forçado a concordar.
― Alguma vez já foi espancado por conta disto?
― Ah, muitas.

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