Guerra

Sem motivo, a porta que dava para o banheiro amanhecera de ponta-cabeça. Acima da maçaneta ― que agora ficava à esquerda ―, em lugar da simpática interrogação havia um buraco de fechadura invertido, que mais parecia um ponto de exclamação. O momento era solene. Bem diante de seus olhos, quiçá pela primeira vez, numa simples intervenção o universo quebrava suas inquebráveis regras.

Desconfiado do acaso, não ousou abrir a porta. Do lado de lá esperava absolutamente tudo, menos um vaso sanitário. Seu sentido de liberdade se esvaía junto com as leis. A antiga disciplina da natureza agora lhe parecia um benevolente estado de distração. O universo resolvera, então, ameaçá-lo com ações deliberadas. Tomou como declaração de guerra: o monstro autista estava acordado.

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Corta!

Ah, se ele soubesse o mal que havia feito: num contato telefônico ― plenamente dispensável, com o perdão da honestidade ― interrompeu a moça em casa. Sozinha. Adorável. No auge de uma cena de dança ― como poucas, memorável.

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Óptica

Acordou era fim de tarde. Delicados fachos de luz amarela invadiam a sala, enfileirados em larguras desiguais pelo crivo das frestas na janela. Deitado no sofá com olhos recém-abertos, via luzes que se moviam e cortavam o teto num plano horizontal, até caírem bruscamente em ângulo reto pela parede, como uma cachoeira. Em pensamentos vagos, superpostos, lembrou-se de fragmentos do dia anterior. Tudo lhe parecia tão inverossímil ― a arquitetura, a geometria daqueles fachos de luz, os pequenos detalhes de comportamento das pessoas em sua memória ― que duvidou se estaria mesmo acordado no curso principal de sua existência. Levantou-se e vagou até a cozinha. Grudado na geladeira por um ímã de pizzaria, um recado com data, nome e número de telefone. Chegou a discar o prefixo, mas desligou o aparelho logo em seguida. Resolver um compromisso em tal estado de coisas lhe parecia tarefa insignificante. Mas como o dia insistisse num encadeamento de sensações e imagens que ― não restava dúvida ― lhe era bastante familiar, olhou para o recado na geladeira, memorizou o número numa breve melodia e tornou a discar.

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Mãos de deus

Os objetos ficavam dias e dias jogados pela casa. Fosse uma revista esquecida com displicência na mesa da cozinha, alguns discos espalhados no sofá, ou mesmo uma caixa de leite largada pela metade num compartimento incomum da geladeira. Era incapaz de macular os rastros da presença alheia. Tinha dificuldade especial com vestígios de hábitos que não eram os seus, como o cinzeiro sujo que ficou um ano inteiro no peitoril. Certa vez, passou quase uma semana tomando banho de água fria ― coisa que fazia em mil etapas, e com imensa dificuldade ― só porque o chuveiro um dia apareceu regulado assim. O fato é que sempre que mexia nas coisas com as próprias mãos, era como se delas retirasse a alma. Até sua escrita o incomodava ― o fluxo dos pensamentos e a caligrafia eram de uma familiaridade desoladora. Mas haviam exceções. Não se incomodava com a maneira que deixava as coisas nos momentos de pressa. Nessas ocasiões, sua distração o camuflava num estranho. Objetos quebrados por acidente também tinham significado especial. O relevo de uma peça quebrada, o traçado irregular de uma rachadura, ou o formato aleatório de um estilhaço possuíam um frescor que o arrebatava.

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Visita

Cambaleava em direção à porta, a tropeçar nos móveis e sapatos pelo caminho. Fora acordado em plena madrugada pela campainha. As luzes estavam apagadas e, para completar sua sorte, tinha um dos pés ainda atolado num sonho. Quando finalmente alcançou a porta, seu corpo gelou ao escutar um sussurro alto vindo de fora:
― Oi, meu nome é Getúlio. Sou aquele menino magro de sunga verde com quem você brincou numa piscina de hotel quando tinha sete anos, lembra de mim? Não se assuste, preciso muito falar com você.

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Transgressão

― Fique aí enquanto o papai vai comprar o jornal.
Com um beijo na testa, deixou o filho sentado no banco da praça e partiu atrás do jornaleiro, que já ia longe. Ao menino, só restava esperar. Viu o pai caminhar quinze metros, passar rente a um grande cavaleiro de bronze, acelerar o passo ― assustando, com isso, dois ou três pombos ―, virar à direita num chafariz e parar no meio-fio. Sumiu entre as pessoas ao atravessar uma rua movimentada. O menino ficou assombrado. Aos quatro anos, era a primeira vez em que se via inteiramente só num lugar público. Queria muito chorar, mas recuperou a compostura em tempo de arquitetar uma idéia promissora: subiria no banco para conseguir uma visão de cima. Logo que colocou os pés no assento, percebeu que havia um velhinho sentado ao seu lado. Esqueceu-se do pai. Agora que estava por si, fora tomado por um profundo senso de responsabilidade que até então lhe era estranho. Tomou consciência de que não apenas estava de pé no banco, como de que o fazia com os pés calçados e num par de tênis imundo. Envergonhado pela transgressão, ficou vermelho dos pés à cabeça e pediu desculpas. E o velhinho, semidistraído:
― Meu filho, você acha que alguém se importa com isso?
Aquilo foi, para o menino, uma revelação.

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Minuto da Saudade

Hoje vamos explorar um detalhe casual de sua vida ― a época.

Você vive em meados da primeira década do século XXI, um ponto perdido numa linha de tempo imaginária. Todos aqueles que, como você, respiram neste instante, são testemunhas do mesmo fragmento desta linha imaginária. O preciso momento em que você lê estas palavras é uma lembrança e, como toda lembrança, já é digno de saudade. Se você é um motorista habilitado e tem acesso a um automóvel equipado com toca-fita ou qualquer tecnologia de reprodução sonora popular em sua época, pode fazer esta experiência.

Com os ouvidos descansados, sente-se no banco do motorista e ponha pra tocar um disco de música eletrônica histérica, desses progressivos, cheios de excessos e passagens elaboradas. Aumente o volume e rume para a cidade mais próxima. Enquanto dirige, preste atenção em cada passagem da música: nos ruídos que precedem as vozes misteriosas, nas vozes misteriosas que precedem a pausa climática, na pausa climática que precede a introdução bombástica, e siga adiante. Tenha o cuidado de não fechar os olhos, pois em tais circunstâncias nosso pequeno experimento tende a tomar um rumo mais intenso do que o desejado. Pelo contrário, mantenha os olhos bem abertos a observar tudo ― os cachorros, as árvores, os prédios, as placas de publicidade, a dança dos carros e das pessoas em trânsito ― com uma curiosidade alienígena.

O truque está em subverter a sensação do agora, em transformar a eletricidade do momento presente num fragmento nostálgico da história. Lembre-se que, daqui a vinte anos, a moda atual lhe será tão incompreensível quanto hoje é a moda de vinte anos passados. É como assistir a um documentário. No pára-brisa estão as imagens, e no toca-fita, a trilha sonora de época.

Para completar, se o espírito for propício, encoste e ofereça carona a um terráqueo que lhe cause empatia. Facilite a conversa e deleite-se com o frescor de palavras e trejeitos encharcados de agora.

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