Transgressão

― Fique aí enquanto o papai vai comprar o jornal.
Com um beijo na testa, deixou o filho sentado no banco da praça e partiu atrás do jornaleiro, que já ia longe. Ao menino, só restava esperar. Viu o pai caminhar quinze metros, passar rente a um grande cavaleiro de bronze, acelerar o passo ― assustando, com isso, dois ou três pombos ―, virar à direita num chafariz e parar no meio-fio. Sumiu entre as pessoas ao atravessar uma rua movimentada. O menino ficou assombrado. Aos quatro anos, era a primeira vez em que se via inteiramente só num lugar público. Queria muito chorar, mas recuperou a compostura em tempo de arquitetar uma idéia promissora: subiria no banco para conseguir uma visão de cima. Logo que colocou os pés no assento, percebeu que havia um velhinho sentado ao seu lado. Esqueceu-se do pai. Agora que estava por si, fora tomado por um profundo senso de responsabilidade que até então lhe era estranho. Tomou consciência de que não apenas estava de pé no banco, como de que o fazia com os pés calçados e num par de tênis imundo. Envergonhado pela transgressão, ficou vermelho dos pés à cabeça e pediu desculpas. E o velhinho, semidistraído:
― Meu filho, você acha que alguém se importa com isso?
Aquilo foi, para o menino, uma revelação.

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2 comentários sobre “Transgressão

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