Mãos de deus

Os objetos ficavam dias e dias jogados pela casa. Fosse uma revista esquecida com displicência na mesa da cozinha, alguns discos espalhados no sofá, ou mesmo uma caixa de leite largada pela metade num compartimento incomum da geladeira. Era incapaz de macular os rastros da presença alheia. Tinha dificuldade especial com vestígios de hábitos que não eram os seus, como o cinzeiro sujo que ficou um ano inteiro no peitoril. Certa vez, passou quase uma semana tomando banho de água fria ― coisa que fazia em mil etapas, e com imensa dificuldade ― só porque o chuveiro um dia apareceu regulado assim. O fato é que sempre que mexia nas coisas com as próprias mãos, era como se delas retirasse a alma. Até sua escrita o incomodava ― o fluxo dos pensamentos e a caligrafia eram de uma familiaridade desoladora. Mas haviam exceções. Não se incomodava com a maneira que deixava as coisas nos momentos de pressa. Nessas ocasiões, sua distração o camuflava num estranho. Objetos quebrados por acidente também tinham significado especial. O relevo de uma peça quebrada, o traçado irregular de uma rachadura, ou o formato aleatório de um estilhaço possuíam um frescor que o arrebatava.

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2 comentários sobre “Mãos de deus

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