Óptica

Acordou era fim de tarde. Delicados fachos de luz amarela invadiam a sala, enfileirados em larguras desiguais pelo crivo das frestas na janela. Deitado no sofá com olhos recém-abertos, via luzes que se moviam e cortavam o teto num plano horizontal, até caírem bruscamente em ângulo reto pela parede, como uma cachoeira. Em pensamentos vagos, superpostos, lembrou-se de fragmentos do dia anterior. Tudo lhe parecia tão inverossímil ― a arquitetura, a geometria daqueles fachos de luz, os pequenos detalhes de comportamento das pessoas em sua memória ― que duvidou se estaria mesmo acordado no curso principal de sua existência. Levantou-se e vagou até a cozinha. Grudado na geladeira por um ímã de pizzaria, um recado com data, nome e número de telefone. Chegou a discar o prefixo, mas desligou o aparelho logo em seguida. Resolver um compromisso em tal estado de coisas lhe parecia tarefa insignificante. Mas como o dia insistisse num encadeamento de sensações e imagens que ― não restava dúvida ― lhe era bastante familiar, olhou para o recado na geladeira, memorizou o número numa breve melodia e tornou a discar.

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