Apeirofobia

medo é medo do infinito. Todo
é medo do infinito. Todo medo
medo do infinito. Todo medo é
do infinito. Todo medo é medo
infinito. Todo medo é medo do
Todo medo é medo do infinito.

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De manhã cedo

Devia ter uns dez anos. Encontrei-o parado de pé na cozinha, como se me esperasse. Segurei seu braço:
― Posso te beijar, se quiser?
Ele apenas sorriu.
― Consegue falar como adulto?
Respondeu com uma frase engraçada, imitando um sotaque português. Prossegui com o interrogatório:
― Você é uma figura de sonho?
Com esta pergunta, desapareceu. Procurei-o na escuridão da sala de estar e logo escutei o sussurro:
― Fale mais baixo.
Ressurgiu como um grande vulto disforme e me atraiu para o corredor. Quando voltou a falar, estávamos os dois deitados no chão. Era um recém-nascido.
― Eu sou ― as últimas palavras, balbuciou lentamente, como se eu as colocasse em sua boca ― um cordeiro de deus.
― Mas o que é um cordeiro de deus?
Ele falava, mas não tinha cabeça e nem cicatrizes no pescoço fino de bebê:
― É um imortal na areia.

Não é a primeira vez que ponho um personagem de sonho contra a parede, e ele, como se despertado de um transe, me responde num tom religioso.

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Área de serviço

Foi quando estendia roupas na área de serviço que a menina tímida percebeu o olhar triste do menino, enquadrado pela janela nos fundos do prédio vizinho. Reparou sua presença nos dias seguintes, sempre pela manhã. Sem pensar no porquê, passou a estender as roupas sem roupa, sua nudez protegida por um parapeito providencial. Olhava o menino de canto de olho e não percebia qualquer reação. Numa dessas manhãs, tomou um susto quando viu o menino triste de corpo inteiro, desta vez agachado no peitoril rodeado de limo. Sem pensar no porquê, armou a escada de ferro que ficava encostada num canto, subiu até o último degrau e, muito séria, fingia trocar uma lâmpada.

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Pirueta

Era uma vez um esquizofrênico que, num golpe de mestre, interpretou a ilusão do cotidiano como conto de fadas. Com sua recém-adquirida presença de espírito, logo ficou rico e casou com a princesa.

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Transtorno de Despersonalização (DSM-IV: 300.6)

O silêncio então, num suspiro, impregnou seus sentidos. O corpo, assim preenchido, trabalhava com cerimônia, sem mais o despojamento da solidão. Apanhou um pequeno objeto no peitoril e deu dois passos lentos para trás, o olhar perdido na delicadeza meticulosa dos movimentos de sua mão. Escorregou numa conta de telefone, esbarrou ― sabe-se lá ― numa cadeira e despencou uma queda espetacular. Por muito pouco o silêncio não lhe sai pelos poros. Deitada no piso de taco entrelaçado em dois tons, sorria, em parte encantada pela trivialidade daquele incidente. Como se tudo transbordasse significado, sorria também de pudor diante dos olhares no porta-retrato, ainda firme em sua mão direita.

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Keitai

Estava a moça de óculos escuros acomodada numa mesinha de lanchonete, sua atenção mergulhada num emaranhado de menus de um telefone celular quando, das profundezas do cotidiano, emerge um estranho que lhe pede licença para comer o resto de torta que havia deixado sobre a mesa. A moça desvia o olhar rapidamente, vê tratar-se de um jovem bem vestido e faz com a cabeça que sim, antes de retornar aos menus. Ele senta na cadeira vizinha e, com o garfo descartável, raspa com cuidado a cobertura branca separada no canto do pires. Comenta de passagem, o creme ainda derretido na boca:
― Hmm… sua saliva… ácida, levemente adocicada.
Levanta, despede-se da moça com um beijo no cocuruto e, num fenômeno inverso à sua chegada, desaparece na bruma do dia-a-dia. Ela, sem tomar conhecimento:
― Alô? Desculpe a demora. É que enquanto eu procurava seu telefone, um estrupício inclassificável me tirou a concentração.

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