Da extrema violência dos respingos d’água no vão entre o pneu traseiro de um ônibus em movimento e o asfalto molhado num dia de chuva

O trivial não existe, é uma abstração.

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Vermelho

O sujeito era muito suscetível a qualquer sensação, e esta pequena curiosidade escondia em seu novelo um detalhe ainda mais curioso. A coisa funcionava assim: digamos que este sujeito (vamos chamá-lo Trombonildo) olhasse para um belo sapato vermelho. Seus sentidos partiam da percepção trivial de vermelho e avançavam. Até um ponto em que seu organismo simplesmente nadava num rio vermelho. Rio quente, vermelho-sangue. Agora o detalhe ― sabe aquele ossinho esquisito, perto do cotovelo? Executava sem delicadeza sua função: tomava um choque. Um vermelho-choque. E Trombonildo não tinha paz. Morria de medo de tomar este choque escabroso em situações que envolvessem conceitos que considerava, digamos, um tanto obscuros. Mas a vida lhe reservou, até o dia de sua morte (ataque cardíaco fulminante, no momento em que terminava de ler uma história estranha sobre um tal Trombonildo), finais felizes em sucessão. Pois quando Trombonildo começava a afogar-se na temida obscuridade ― e seus dois ossinhos ensaiavam as primeiras fagulhas de um choque descomunal ― surgia sempre, para salvá-lo, uma nova sensação, um novo vermelho.

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Cinema paradiso

Tinha duas cenas, o filme ― ambas curtas e memoráveis. Na primeira, um par de mãos decididas manipulava um objeto cilíndrico, num sofrido vaivém. A cada movimento de saída, os pequenos lábios cor-de-rosa eram repuxados para fora, como se fossem borrachas de proteção. Na segunda, a suprema intimidade: a moça de olhos pretos sorria com dois furinhos na bochecha e dava língua para a câmera. Só uma pontinha de língua, parecia um anjo.

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Delírio cotidiano

Um clique do interruptor desfaz o silêncio na cozinha: “Rerrerré, chego em casa nem troco de roupa, vou fazer meu miojo. Todo suado, todo fedendo a rua, não quero saber. Rerrerré, de galinha, o clássico. Dois copos e meio sua mãe. Abro logo a torneira, meu negócio é no olho”. Acende a boca maior do fogão com a ponta do cigarro e vai fazer um café. Ao ouvir o chiado das primeiras borbulhas, rasga o pacote no meio com os dentes. Despeja o envelope prata na mesa, e na panela, o tijolo de macarrão: “Rerrerré, três minutos sua mãe”. No escuro do quarto, localiza um disco de Tom Waits e cai de bruços na cama. Seu macarrão tem que ser empapado: fogo alto, três minutos e quarenta e sete, segunda faixa do lado A. Toma um gole de café do seu copo americano ― surrupiado, com orgulho, de um boteco: “Rerrerré, eu sou tipo bucóvisque”.

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Desejo

Liberto da lâmpada e sua existência surreal, declamou um gênio agradecido:
― Tens direito a três desejos!
― Desejo, então, afogar-me na delicadeza do mundo.
O gênio, com seus dedos redondos, cerrou os olhos do amo e beijou-lhe os lábios bem devagar, enquanto lágrimas de séculos gotejavam na areia fina.

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