Delírio cotidiano

Um clique do interruptor desfaz o silêncio na cozinha: “Rerrerré, chego em casa nem troco de roupa, vou fazer meu miojo. Todo suado, todo fedendo a rua, não quero saber. Rerrerré, de galinha, o clássico. Dois copos e meio sua mãe. Abro logo a torneira, meu negócio é no olho”. Acende a boca maior do fogão com a ponta do cigarro e vai fazer um café. Ao ouvir o chiado das primeiras borbulhas, rasga o pacote no meio com os dentes. Despeja o envelope prata na mesa, e na panela, o tijolo de macarrão: “Rerrerré, três minutos sua mãe”. No escuro do quarto, localiza um disco de Tom Waits e cai de bruços na cama. Seu macarrão tem que ser empapado: fogo alto, três minutos e quarenta e sete, segunda faixa do lado A. Toma um gole de café do seu copo americano ― surrupiado, com orgulho, de um boteco: “Rerrerré, eu sou tipo bucóvisque”.

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2 comentários sobre “Delírio cotidiano

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