Vermelho

O sujeito era muito suscetível a qualquer sensação, e esta pequena curiosidade escondia em seu novelo um detalhe ainda mais curioso. A coisa funcionava assim: digamos que este sujeito (vamos chamá-lo Trombonildo) olhasse para um belo sapato vermelho. Seus sentidos partiam da percepção trivial de vermelho e avançavam. Até um ponto em que seu organismo simplesmente nadava num rio vermelho. Rio quente, vermelho-sangue. Agora o detalhe ― sabe aquele ossinho esquisito, perto do cotovelo? Executava sem delicadeza sua função: tomava um choque. Um vermelho-choque. E Trombonildo não tinha paz. Morria de medo de tomar este choque escabroso em situações que envolvessem conceitos que considerava, digamos, um tanto obscuros. Mas a vida lhe reservou, até o dia de sua morte (ataque cardíaco fulminante, no momento em que terminava de ler uma história estranha sobre um tal Trombonildo), finais felizes em sucessão. Pois quando Trombonildo começava a afogar-se na temida obscuridade ― e seus dois ossinhos ensaiavam as primeiras fagulhas de um choque descomunal ― surgia sempre, para salvá-lo, uma nova sensação, um novo vermelho.

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