A garota do pára-brisa

“Aqui não se morre” ― pensou sem pensar, num dialeto primitivo do corpo, enquanto empurrava a porta de vidro da loja de conveniências. Ao primeiro passo, suas pupilas encolheram-se em protesto à luz branca do sistema de iluminação. Num movimento quase imperceptível, espremeu a carteira do bolso e rumou em direção ao caixa eletrônico, suas mãos concentradas num procedimento automático de localização e resgate de objetos. Com o cartão plástico firme entre os dedos, conquistou com alguns toques a confiança da máquina e recolheu quatro cédulas lisas de dez pela fenda. Dobrou-as com uma das mãos enquanto a outra puxava a porta do refrigerador para além do seu corpo. Escorou-a com o ombro e reconheceu as letras cursivas na lata vermelha, os pelos da nuca eriçados de frio.

Gostava de dirigir à noite, a cidade deserta lhe parecia mais compreensível. Na entrada de um longo túnel, não conteve o grito: um corpo de mulher desabou com estrondo no pára-brisa. Com a visão bloqueada, orientava-se pela janela, os longos cabelos da morta de encontro ao seu rosto. Como o túnel e sua luz amarela nunca chegassem ao fim, em estado de choque lembrou-se do rádio. Apertou cinco botões numa seqüência memorizada e chegou à estação preferida, na esperança de um resgate impossível por um refrão de sucesso qualquer. No braço desconjuntado da moça, estirado por trás da cabeça em posição estratégica, detectou a cadência firme dos segundos num ponteiro finíssimo de relógio e concentrou sua vista naquele pequeno artefato, tão vivo quanto familiar. À contagem de trinta e sete, saiu finalmente do túnel, virou à direita e parou na contramão de uma rua estreita, deserta. Apertou o botão vermelho do cinto de segurança e respirou fundo. No ar, um perfume doce de xampu.

De pé no asfalto, espremeu do bolso um telefone e deu quatro toques no teclado. Escorou o aparelho com o ombro e caminhou em direção à mulher, o sinal de chamada insistente no ouvido. No rádio, um locutor de voz mansa recapitulava as últimas músicas da programação. Chegou bem perto, fitou-lhe os cabelos pretos, o filete de sangue entre o nariz e a boca, e deteve-se nos olhos cerrados. Longe de mortos, mais pareciam voltados para a vastidão de um mundo interior. Ao tocar-lhe a face com as costas da mão, arrepiou-se com a voz de mulher: “central de polícia”. Deixou cair o telefone no instante em que o cadáver se iluminou. Ao olhar para trás, suas pupilas encolheram, ofuscadas pela luz do automóvel em alta velocidade.

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