Pornô amador

O espelho a chamava, e era sempre o mesmo sinal que a deixava inquieta. Uma mancha insignificante no ombro que, por razões que jamais saberia explicar, ressaltava qualquer aspecto primitivo de sua condição feminina. O animal que via refletido era ela e era outra. Sempre em cortes, pequenos detalhes. Não conseguia ater-se ao corpo como um todo. Tão vulgar, tão material, tão diferente do que podia lembrar de si mesma. No espelho, seu ser parecia exageradamente delineado, muito distinto de seu confuso universo mental ― e por isso apenas, tão atraente. De início, nunca permitia tocar-se. Observava-se abrir as pernas e fazer pequenas contrações. Não suportava o brilho de sua carne. Derretia, seu corpo pingava na cadeira. Desejava que alguém entrasse e presenciasse aquilo, qualquer um. Foi pensando nesta doce humilhação que, afinal, deixou-se tocar. Com as pontas dos dedos molhadas, rodeava os mamilos com delicadeza. Não era sempre que fazia tão devagar, desta vez queria sentir muito. Não se reconhecia ― o tronco tão esticado, os movimentos tão sinuosos que seu corpo parecia possuído. Não lembrava ter dado ordem para enrijecer os pés daquela maneira, os dedos assim apertados contra o chão. A esta altura, escorria pela cadeira e pingava no piso gelado.

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Menoridade

Por derramar um copo plástico de guaraná no macacão azul da menina, atiçou uma pequena multidão ao seu redor. Fosse com toda a psicologia do universo, mesmo que até o último segundo daquela festa de aniversário, ainda assim não conseguiriam arrancar daquele menino de quatro anos uma descrição compreensível da beleza que enxergava nos pequenos lapsos de descontrole.

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