Tigelas azuis transparentes

Tenho uma tigelinha azul que nasceu aqui em casa. Antes, só tinha uma grande ― esta, adquiri já adulta. Deve ter chegado grávida, pois a outra surgiu sem aviso, minúscula, emborcada num canto de prateleira. O mesmo azul transparente, a mesma aba na borda. Estranhei o tamanho a princípio, pois nela não cabia sequer um terço das pipocas que cabiam na outra. Mas como não sou de dar crédito à memória, convenci-me tratar-se da antiga. Afinal, até a aba na borda era idêntica. Para minha surpresa, meses depois encontrei a mãe toda empoeirada dentro de um armário. Procurei a menor e só tirei a prova quando vi as duas na mesa, dispostas lado a lado. Agora elas vivem juntas, uma dentro da outra. Estranho a pequena não ter crescido mais. Deve ser anã, por isso ficou assim tão miúda.

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Violência urbana

Caminhava uma mulher qualquer à meia-noite ladeira abaixo, num rebolado sutil, preguiçoso; sua atenção distraída pelo ruído crespo do motor de um carro azul-enluarado de origem desconhecida, parado ao seu lado num arremedo de acostamento. Pela janela via duas mulheres ― uma delas, a que estava mais perto, num sobressalto abriu a porta do carona e puxou-a pelo antebraço:
― Você não passa de hoje.
Forçada para o interior deste carro, deparou-se com uma motorista séria a olhar para a frente, o polegar mal iluminado firme no botão de freio. De costas para todas, no banco traseiro, uma terceira apenas mirava a paisagem. Esta, tão logo o carro se pôs em movimento, segurou-a pela mão numa leve apatia e, sem desviar o olhar da janela por um segundo, massageava seus dedos, um de cada vez. Não pensava em mais nada neste mundo.

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