Farsa em três atos

De olhos ainda fechados, pesou as circunstâncias e julgou mais acertado voltar a dormir. Não deu um segundo, pulou da cama a cantarolar: “vamos fazer um café, tomar um banho, essas coisas de gente que gosta de vida”. Disparou até a janela mais próxima, procurou um filete vertical de céu por entre os prédios vizinhos e desculpou-se pelas palavras.

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Tigelas azuis transparentes

Tenho uma tigelinha azul que nasceu aqui em casa. Antes, só tinha uma grande ― esta, adquiri já adulta. Deve ter chegado grávida, pois a outra surgiu sem aviso, minúscula, emborcada num canto de prateleira. O mesmo azul transparente, a mesma aba na borda. Estranhei o tamanho a princípio, pois nela não cabia sequer um terço das pipocas que cabiam na outra. Mas como não sou de dar crédito à memória, convenci-me tratar-se da antiga. Afinal, até a aba na borda era idêntica. Para minha surpresa, meses depois encontrei a mãe toda empoeirada dentro de um armário. Procurei a menor e só tirei a prova quando vi as duas na mesa, dispostas lado a lado. Agora elas vivem juntas, uma dentro da outra. Estranho a pequena não ter crescido mais. Deve ser anã, por isso ficou assim tão miúda.

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Violência urbana

Caminhava uma mulher qualquer à meia-noite ladeira abaixo, num rebolado sutil, preguiçoso; sua atenção distraída pelo ruído crespo do motor de um carro azul-enluarado de origem desconhecida, parado ao seu lado num arremedo de acostamento. Pela janela via duas mulheres ― uma delas, a que estava mais perto, num sobressalto abriu a porta do carona e puxou-a pelo antebraço:
― Você não passa de hoje.
Forçada para o interior deste carro, deparou-se com uma motorista séria a olhar para a frente, o polegar mal iluminado firme no botão de freio. De costas para todas, no banco traseiro, uma terceira apenas mirava a paisagem. Esta, tão logo o carro se pôs em movimento, segurou-a pela mão numa leve apatia e, sem desviar o olhar da janela por um segundo, massageava seus dedos, um de cada vez. Não pensava em mais nada neste mundo.

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Pornô amador

O espelho a chamava, e era sempre o mesmo sinal que a deixava inquieta. Uma mancha insignificante no ombro que, por razões que jamais saberia explicar, ressaltava qualquer aspecto primitivo de sua condição feminina. O animal que via refletido era ela e era outra. Sempre em cortes, pequenos detalhes. Não conseguia ater-se ao corpo como um todo. Tão vulgar, tão material, tão diferente do que podia lembrar de si mesma. No espelho, seu ser parecia exageradamente delineado, muito distinto de seu confuso universo mental ― e por isso apenas, tão atraente. De início, nunca permitia tocar-se. Observava-se abrir as pernas e fazer pequenas contrações. Não suportava o brilho de sua carne. Derretia, seu corpo pingava na cadeira. Desejava que alguém entrasse e presenciasse aquilo, qualquer um. Foi pensando nesta doce humilhação que, afinal, deixou-se tocar. Com as pontas dos dedos molhadas, rodeava os mamilos com delicadeza. Não era sempre que fazia tão devagar, desta vez queria sentir muito. Não se reconhecia ― o tronco tão esticado, os movimentos tão sinuosos que seu corpo parecia possuído. Não lembrava ter dado ordem para enrijecer os pés daquela maneira, os dedos assim apertados contra o chão. A esta altura, escorria pela cadeira e pingava no piso gelado.

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Menoridade

Por derramar um copo plástico de guaraná no macacão azul da menina, atiçou uma pequena multidão ao seu redor. Fosse com toda a psicologia do universo, mesmo que até o último segundo daquela festa de aniversário, ainda assim não conseguiriam arrancar daquele menino de quatro anos uma descrição compreensível da beleza que enxergava nos pequenos lapsos de descontrole.

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